Serão os assintomáticos transmissores da Covid-19?

Muito se tem escrito, muitas afirmações têm sido feitas a este respeito. Uns afirmam que sim, outros afirmam que não, outros dizem que nem sim nem não. A própria OMS tem estudado o assunto e não chega a conclusões definitivas. Ver Transmissão por assintomáticos.

Entretanto os assintomáticos têm sido considerados transmissores e postos em isolamento profilático para "quebrar as cadeias de transmissão"

Para responder à pergunta que serve de título a este artigo temos que começar por definir conceitos:

  1. Quais os sinais e sintomas da doença. Os sintomas são descritos pelo doente; os sinais são dados que o médico recolhe pelo exame físico do seu doente. Temos então, os seguintes sintomas
    • febre (temperatura ≥ 38.0ºC) sem outra causa atribuível
    • tosse de novo, ou agravamento do padrão habitual, ou associada a dores de cabeça ou dores generalizadas do corpo
    • dificuldade respiratória/dispneia, sem outra causa atribuível
    • perda total ou parcial do olfato (anosmia), enfraquecimento do paladar (ageusia) ou perturbação ou diminuição do paladar (disgeusia) de início súbito
  2. Definir o que é um assintomático: será um indivíduo com ausência de sinais e sintomas de doença
  3. Teremos que definir se um infectado pode ser completamente assintomático (ausência de sinais e sintomas)
  4. Uma pessoa saudável pode ser portadora do vírus? 
  5. Teremos que saber, sem dúvidas, como se transmite a infecção

Vamos então analisar ponto por ponto estes requisitos.

  • PONTO 1., PONTO 2. e PONTO 3.  Temos uma lista de sintomas, mas como o provável doente, que tem um teste positivo, não foi examinado por um médico não temos uma história clínica nem sinais físicos como uma auscultação pumonar anormal, por exemplo. Portanto à partida não podemos afirmar que um "assintomático" é verdadeiramente um assintomático só porque a pessoa diz que não sente nada de anormal. Além disso sabemos que existe um período de 24 a 48h que pode preceder o início dos sintomas. Assim, alguém que "não sente nada" hoje, pode sentir 24 a 48h depois. Há mesmo infecções que não dão sintomas durante muito tempo, mesmo anos, como as hepatites, por exemplo. Portanto um infectado pode ser completamente assintomático em algumas patologias. Porém isto não costuma acontecer nas doenças respiratórias, sobretudo nas viroses.
  • PONTO 4. Sim, uma pessoa saudável pode ser portadora do vírus se o seu sistema imunitário a proteger da infecção, porém não há evidência que o vírus permaneça muito tempo íntegro nas suas vias aéreas superiores de modo a ser transmissível.
  • PONTO 5. Aqui há um detalhe muito importante. Se a pessoa suspeita não tem sintomas, não tem tosse, a COVID não costuma originar espirros, então como pode transmitir a doença? Temos que ter a certeza de como se transmite a doença. Sem tosse ou espirros, só poderá ser por pequenas partículas ou aerossóis quando fala. Mas... não está demostrado que a doença possa ser transmitida por aerossóis pois nenhum estudo encontrou vírus nas amostras de ar:
  1. Transmission of SARS-CoV-2 can occur through direct, indirect, or close contact with infected people through infected secretions such as saliva and respiratory secretions or their respiratory droplets, which are expelled when an infected person coughs, sneezes, talks or sings.
  2. Airborne transmission is defined as the spread of an infectious agent caused by the dissemination of droplet nuclei (aerosols) that remain infectious when suspended in air over long distances and time. WHO, together with the scientific community, has been actively discussing and evaluating whether SARS-CoV-2 may also spread through aerosols in the absence of aerosol generating procedures, particularly in indoor settings with poor ventilation. To date, transmission of SARS-CoV-2 by this type of aerosol route has not been demonstrated; much more research is needed given the possible implications of such route of transmission.
  3. no studies have found viable virus in air samples

Assim, que conclusões poderemos tirar??

  1. De nada serve termos um imenso lote de positivos com mais de 95% de "assintomáticos" se estes nunca foram interrogados e examinados por um médico em busca de sinais e sintomas; por vezes no interrogatório do doente temos que retirar informações a "saca-rolhas" (como costumamos dizer) pois há muitas pessoas "heróicas" que nunca sentem nada. Sem exame médico, considerar que assintomáticos são ou não são doentes é pura especulação e só pode conduzir ao caos que observamos hoje.
  2. Partindo do princípio que o paciente foi consultado por um médico e que não existem sinais ou sintomas de doença respiratória, então, se essa pessoa tem um teste "verdadeiro positivo", só a emissão de aerossóis poderá transmitir a doença, pois não há tosse, porém já vimos que o vírus NUNCA foi detectado no ar, como podem ler na referência  "como se transmite a doença".
  3. Mesmo na gripe, não está provado que assintomáticos ou pré-sintomáticos possam transmitir a doença!
  4. Um estudo muito recente, efectuado sobre 10M de habitantes de Wuhan, provou, mesmo com algumas reservas, que os assintomáticos não transmitiam a doença. Porém devo referir que o estudo foi feito no "Post-Lockdown". Esses assintomáticos pode ser simplesmente pessoas que testaram positivo devido a resíduos víricos na orofaringe ou nasofaringe devido a uma infecção anterior. A prova é que as culturas foram todas negativas nesses "assintomáticos"
  5. Assim, e porque em medicina "nem sempre, nem nunca", podemos admitir que a probabilidade de um "verdadeiro assintomático", comprovado clinicamente, transmitir a COVID-19 é muito escassa. 
Data: 
21 Nov, 2020
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