Saúde em Portugal vista por uma Enfermeira

Há poucos dias o meu filho perguntou-me: "Durante a epidemia de cólera, na altura em que estavas na linha da frente, quem estava dentro não sabia mais que os outros sobre a situação? Ao que eu respondi: "não... só sabíamos o que tínhamos na nossa frente, os casos graves. Todos os outros eram-nos desconhecidos. Quando se está num hospital, num serviço de urgência ou numa UCI só temos casos dramáticos, compreendes? Não vemos a linha do horizonte... estamos dentro"...

Esta enfermeira não está em hospital nem em serviço de urgência ou UCI. Está junto dos muito idosos, dos mais vulneráveis, tenta que eles não adoeçam, protege-os. O seu horizonte é vasto, a sua experiência também. Merece ser lida.

"E se não quisermos uma tele-vida para o nosso futuro próximo? E se alguém ousasse fazer um referendo mundial, já que a agenda é global, para conceder o direito às pessoas de decidirem se querem viver numa vida à distância, protegidas por um acrílico permanente?" Porque é que uma curta minoria de pessoas tem o direito de decidir qual será a nova forma de vida no Planeta Terra até 2023, como se os restantes biliões de pessoas fossem crianças e não tivessem direito a uma opinião no mundo dos adultos? Quem garante que valores como o humanismo, a equidade e o direito a todas as necessidades fundamentais vão ser efetivamente assegurados aos mais frágeis? Num regime totalitarista? Em que a liberdade individual deixa de existir?

No início de 2021, só vos peço que adiem a tele-vida em Portugal por três meses. E depois desses três meses voltamos a falar no assunto. Nada muda no gráfico das mortes de fonte em que confio inteiramente - DGS, primeiro anexo. Desde março que 67% das pessoas que morrem "por este vírus" têm mais de 80 anos e estes continuam sem ser verdadeiramente protegidos. Qual o motivo de presidentes das câmaras quererem encerrar escolas esta semana? Sem terem sequer a permissão das autoridades de saúde? Será que não entendem que as crianças/jovens são quem apresenta menor incidência da doença. Que é no seio das famílias/domicílios - quando existe confinamento dos mesmos que os vírus mais se transmitem e não nas escolas onde as regras até são cumpridas? Será que não entendem que o vosso esforço, como políticos locais, devia ser garantir, juntamente com a Segurança Social que os lares/cuidados continuados/instituições, tenham os recursos adequados? Façam parcerias para ontem, com as escolas de enfermagem, com outras instituições de saúde e de ensino, invistam. Porque não, já que gostam tanto de investir em testes, efetuar testes para perceber se a carga vírica dos funcionários é infectante ou não? Se calhar até é possível eles trabalharem se assintomáticos, se assim o desejarem, como soube que estava a acontecer em ato de grande humanismo e dever cívico, com os devidos cuidados a cuidar de outros positivos, sem que todos os funcionários entrem em exaustão por não terem dotações seguras. É que os idosos morrem sobretudo é de falta de cuidados de saúde/de cuidadores. E morrerão cada vez mais se nada for feito! É fundamental também investirem em respostas sociais para os idosos que são abandonados nos hospitais (em ação concertada com a Segurança Social), ou porque que ninguém os vai buscar depois de terem alta ou porque não têm condições condignas para viver. Onde é que está a responsabilidade social das empresas que têm lucros milionários e que deveriam estar a oferecer a tarifa da luz, do gás e da água a todos os que não podem pagar? Quantas pessoas vão morrer de frio esta semana? Não é isso defender os mais frágeis?

Aos profissionais de saúde dos cuidados de saúde primários, faço novo apelo como fiz em agosto: mais do que nunca, não deixem de ver os vossos utentes presencialmente! Mais do que nunca eles precisam de vós... a DPCO que está descompensada... a insuficiência cardíaca... a diabetes... a hipertensão... eles precisam mais do que nunca de vós (são eles que vão parar aos cuidados intensivos). Não vai ser nenhum telefonema que lhes vai salvar a vida. Mas a vossa observação cuidada e atempada (no domicílio ou no vosso gabinete fará de certeza a diferença na sua sobrevida e qualidade de vida). Ninguém os conhece melhor do que vós! Os cuidados de saúde primários são os alicerces do SNS. Se eles se tornarem numa telechamada permanente a Saúde dos Portugueses vai à vida e com ela o desenvolvimento do país... a seguir a educação... e a cultura e...!

Mas talvez, se resistirmos estes três meses, cumprindo as regras da DGS mas trabalhando como formigas e não como cigarras... porque isto ainda não acabou... na Primavera, talvez possamos todos sentar-nos como adultos e cidadãos ativos, a planear, em conjunto, como queremos tornar a nossa sociedade mais saudável e o nosso planeta mais sustentável. Não assim. Não com imposição do medo e da culpa. Porque a única culpa que pode existir neste momento é de ser conivente com o que a comunicação social enfatiza. É o silêncio quando conhecemos a realidade. Cá estarei sempre para defender o que importa. Faço um apelo, a todas as pessoas do meu País. Não tenham medo de ir a um serviço de urgência. Não tenham medo porque encontram os melhores profissionais do mundo que são os portugueses, resilientes, dedicados, atentos, cansados, mas presentes. Atender-vos-ão da forma mais competente que conseguirem, darão o seu melhor. Sei que não sabem mas os números de pessoas que recorrem aos serviços de urgência diminuíram a nível nacional face aos anos anteriores. Não tenham medo porque tudo passa. Felizmente, de dia para dia os dados mostram que a letalidade deste vírus é mais baixa do que se pensava. Ignorem os órgãos de comunicação social que, como dizia o Prof. Torgal esta semana, "vendem medo todos os dias". E o medo continua a matar mais do que o vírus. Esta é a hora de todos dizermos: Presente! Bom Ano de 2021!

E mais adiante esta enfermeria escreve: o problema é mais complexo do parece.

Neste momento há países que adotaram a designação PIC - Pneumonias + Influenza + COVID.

Quando se trata todas as infecções respiratórias como sendo apenas uma destas três, neste caso chamam erradamente COVID a tudo o que tem um teste positivo com pouca fiabilidade (a própria OMS já o admitiu e o autor do teste já o tinha dito) e evitam aproximar-se dos doentes, estão a privar as pessoas mais suscetíveis do tratamento adequado, quando muitas destas têm tratamento específico. Há pessoas que não são auscultadas por suspeita de terem SARS-COV2, não fazem raio X, análises, não são medicadas, quando nos mais idosos é essencial intervir precocemente! E ainda: deixam de ser cuidados, porque os seus cuidadores testam positivo e vão para casa. O grave problema da gestão desta pandemia é que a Sociedade só olha para a última linha: camas de cuidados intensivos, em vez de olhar para a primeira: Prevenção/ cuidados de saúde globais/ distanciamento dentro dos lares mas não isolamento total. Em março/abril o vírus não entrou nas Misericórdias, os seus profissionais foram exímios no cuidar, no prevenir. Agora relaxaram... Mas ele vai passar por todo o lado, como todos os vírus. Concordo que a vacinação é uma esperança para mais idosos. Os casos positivos nas escolas são imediatamente isolados e por excesso até vai a turma toda para casa sem evidência de que haja consequências negativas a nível da Saúde dos que os rodeiam, em termos de impacto significativo. Aquele que devia ser o foco está esquecido desde o início: os mais idosos. E sabemos que o vírus pode atingir famílias inteiras sem gravidade. O que é determinante são os acessos atempados a cuidados de saúde. Que continuam a ser negados com a agenda do tele-tudo. Na Primavera o excesso de mortalidade vai continuar mas já não lhe poderão chamar COVID porque já não haverá infeções respiratórias. Como é que numa pandemia com baixa letalidade deixam de vigiar as doenças crónicas que têm elevada letalidade? São esses que vão parar aos cuidados intensivos! Não me venham com natais e passagens de ano porque as mortes estão a ocorrer sobretudo nos lares, e esses continuam sem ver os familiares... estamos no inverno! A 14/Jan de um ano bem próximo morreram 500 pessoas num só dia. Com o frio que está vai morrer muita gente, não duvidem. O culpado principal não vai ser a COVID-19 mas os órgãos de comunicação social vão fazer questão que seja. E os políticos também. E o essencial continuará encoberto.

Há espaço para tudo: cumprirmos as regras da DGS, cuidarmos de quem está à nossa volta, em especial os mais vulneráveis, deixarmos as crianças ser crianças, termos atenção redobrada aos mais idosos e pessoas com doenças crónicas que esses não podem de certeza deixar de ter cuidados de saúde. Todos juntos podemos fazer a diferença! Pela positiva!

Data: 
6 Jan, 2021
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