A saúde no nosso País ou A linguagem dos números...

Ontem alguém escreveu uma frase muito sábia, atribuída a Santo Agostinho: "Os que não querem ser vencidos pela verdade, serão vencidos pelo erro".

Dizem que os números que nos fornecem a cada dia estão errados, uns errados por excesso, outros por defeito. Correctos ou incorrectos eles falam por si. Vejamos o que eles dizem.

Podemos dizer que números falsos levam-nos a conclusões falsas. Nem sempre é verdade! Se soubermos olhar para eles, eles falam connosco e dizem-nos o que se passa. São tão honestos que conseguem dizer-nos o que foi feito para que eles, números, sejam falsos. Esta é a magia dos números. Além disso, dão-nos a possibilidade de os ver em gráficos. 

Um gráfico mostra uma realidade dada por números. É humilde, transparente. Não lhe falta nada pois o que ele não tem é porque não lhe pertence. Um gráfico não tira conclusões. Estas dependem do humano que olha para o gráfico usando o seus conhecimentos adquiridos e o interpreta.

No estudo que se segue são usados fielmente os dados fornecidos diariamente pela DGS.

Comecemos pelas hospitalizações

Desde Outubro que verificámos um aumento das hospitalizações, é verdade.

Porém temos que relacionar o Nº de hospitalizações com o Nº de novos positivos e com o Nº dos doentes activos. As perguntas são:

  1. qual a % de hospitalizações a cada dia nos novos casos?
  2. Qual a relação entre as hospitalizações e o nº de doentes activos?

Ao responder a estas duas perguntas poderemos avaliar a gravidade destes novos casos. 

As hospitalizações em cada dia são muito variáveis, uns dias há um "balanço" positivo, no outro dia um balanço negativo. E digo "balanço" porque todos os dias há entradas e saídas de doentes, como é óbvio, e o número que nos comunicam é realmente essa diferença. Teremos então que fazer uma média móvel de 7 dias para ter uma visualização mais correcta da evolução dos internamentos. Notem que são percentagens. É a evolução no tempo da relação de duas variáveis.

Como podem ver, houve um importante pico de hospitalizações diárias/novos casos em Março-Abril que não voltou a repetir-se, havendo neste momento um equilíbrio com um aumento de cerca de 0%.  No dia 17-Dez era de -0,3%. Esta estabilidade é importantíssima para avaliarmos o que se passa dentro dos hospitais. Quando vemos um gráfico destes sabemos imediatamente que está tudo sob controlo.

Mas vejamos o que se passa em relação aos pacientes activos, ou seja o total dos positivos depois de excluídos os óbitos e os recuperados.

Desde Maio que a % de internamentos nos pacientes activos oscila entre 2,5% e 5%, sendo no dia 17-Dez 4,5%. 

Mas isto não basta. É importante saber, destes hospitalizados, que proporção é admitida nos cuidados intensivos. Nos pacientes activos cerca de 0,71% (menos de 1 em cada 100) necessita de UCI. Pode parecer muito bom mas o estudo não acaba aqui. O mais importante é saber quantos hospitalizados necessitam de internamento nas UCI e aqui o resultado não é tão tranquilizador como poderíamos prever pois cerca de 15% dos hospitalizados entra nas UCI.

Porém há dados a que não temos acesso, as co-morbilidades. Não sabemos se o paciente está na UCI devido às co-morbilidades (a maioria são pessoas muito idosas) ou se devido à COVID propriamente dita. O problema é que ao ser hospitalizado por outra qualquer razão o paciente fará obrigatoriamente um teste e se for positivo ficará na secção reservada à COVID.

Que conclusões podemos tirar? Que há uma percentagem ínfima de hospitalizações diárias em relação aos novos casos, que dos pacientes activos menos de 1 em cada 100 necessita de UCI, que 95% dos positivos recuperam a domicílio mas que, quando o paciente necessita de hospitalização, em cerca de 15% dos casos é grave, sob ressalva das co-morbilidades.

Recuperados

Algo muito importante é conhecer a evolução dos recuperados e a sua relação com os novos casos. Desde que os pacientes positivos podem ser libertados após o 10º dia do início dos sintomas, os recuperados têm aumentado diariamente, ultrapassando muitas vezes o número de novos casos.

No gráfico, os dois pontos laranja deslocados correspondem aos acertos que foram feitos por duas vezes quando mudaram de sistema.

Esse gráfico mostra que felizmente a grande maioria dos positivos tem formas ligeiras de infecção ou são assintomáticos podendo ter alta em 10 dias e permitindo o equilíbrio entre as entradas e saídas do grupo dos doentes activos. Mas a sobrecarga do SNS existe e pode ser mostrada pelo gráfico. É que a imensa quantidade de positivos e de altas causa uma sobrecarga imensa às equipas de saúde pública que tentam detectar os contactos e aos médicos de família que têm que seguir telefonicamente os positivos que estão a domicílio, impedindo-os de fazer as suas consultas aos doentes não COVID.

Óbitos

Sabemos que a maioria das vítimas tem mais de 55 anos. Vejamos o que se passou nestes grupos etários, desde o mês de Março, em 2019 e o que está a acontecer em 2020.

Estes dados foram actualizados a 17-Dez-2020

Grupo etário 55 a 64 65 a 74 75 a 84 85+++ Total
2019 7165 12655 23984 34518 78322
2020 7375 13577 27336 40280 88568
Excesso 210 922 3352 5762 10246
COVID 157 87 1197 3989 5430
Excesso n/ COVID 4816

Como podemos ver só nestes grupos etários há um importante aumento da mortalidade mesmo deduzindo os óbitos atribuídos à Covid.

Porém, em Novembro foi-nos dito pela Ministra da Saúde que o excesso de óbitos se deve à COVID. Sim é verdade MAS... foi só desde o mês de Novembro.

Vemos no gráfico que repentinamente a mortalidade codificada como COVID aumentou significativamente, sobrepondo-se ao excesso de mortalidade por outras causas que estávamos a ter.

Dada a maneira como se codificam os óbitos e com as normas de testagem no cadáver que estão a ser usadas, todos os cenários e hipóteses são possíveis, sobretudo neste momento em que estamos cientes dos erros cometidos no protocolo do teste PCR e do facto de este teste não ser adequado para rastreio ou diagnóstico (pode ler o artigo aqui).

Quando tudo é duvidoso, quando sabemos que os falsos positivos abundam, podemos pensar que todos estes cálculos perdem o seu valor. Mas não! Na pior das hipóteses, ou seja no caso de os diagnósticos estarem correctos e de não haver um único falso positivo, estes cálculos mostram que se trata de uma patologia que só é grave em 0,71% dos casos (a percentagem de doentes necessitando de UCI no conjunto dos pacientes activos), atingindo sobretudo as idades mais avançadas e só a má utilização dos recursos está a provocar uma sobrecarga do SNS, impossibilitando os Centros de Saúde de funcionar normalmente e impedindo os médicos de família de assistir os seus doentes.

Data: 
18 Dez, 2020
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