Conversa de Natal entre dois médicos...

Considero esta conversa interessante, sobretudo porque existem assuntos do interesse público e também científico. Vejamos então de que se trata.

Fui notificada para um post de uma colega na sua página do Facebook.

A colega aconselhava: 

Este Natal tem que ser diferente!

Existem imensas pessoas infectadas com o vírus CoV-2, assintomaticas. Os testes, na ausência de sintomas, são falíveis. Crianças, adolescentes, jovens adultos, adultos menos jovens... bem dispostos, sem tosse,... saudáveis... mas que transmitem o vírus que pode vir a causar a morte a um dos seus entes queridos.

As enfermarias dos hospitais estão cheias, os cuidados intensivos também e os médicos, enfermeiros e demais técnicos de saúde estão exaustos. Quanto mais pessoas adoecerem, mais difícil vai ser cuidar bem de todos.

Não queira sentir-se culpado pela morte de alguém, não queira ficar doente, não queira morrer.

Proteja-se e proteja os seus!

Por favor, este ano, comemore o Natal só com os familiares que residem na sua casa. Não facilite!"

Não consegui evitar comentar esta publicação:

Oh Colega! Não tem um discurso mais pessimista??? Arranje um filme de terror, talvez seja mais agradável. Se gostar de ler artigos científicos deixo aqui alguns para comparar. Não precisa de ser especialista em Biologia Molecular, basta saber ler um artigo científico e acredito que saiba:

  1. Corman-Drosten-Review-Report lembro-lhe que foi este trabalhinho que deu origem ao protocolo PCR da OMS 
  2. Este foi publicado em Maio, é fidedigno, uma das referências do Scientific Brief da OMS de 09/07/2020.
  3. Portanto em Maio já a OMS deveria ter revisto o protocolo que origina a imensidão de falsos positivos aos quais chamam assintomáticos.
  4. Como médica acha normal considerar pessoas saudáveis como doentes sem uma única consulta médica? com base num teste duvidoso? ou acredita na sua infalibilidade? Quando a clínica e o laboratório discordam deve ter em conta a clínica! Aprendi isto na Faculdade...
  5. Desejo-lhe boa leitura, um pouco de concentração e raciocínio (Deus deu-lhe um cérebro para isso mesmo). Desejo-lhe um Feliz Natal. Não prive os idosos de o passarem com os seus filhos e netos! Para muitos desses idosos será o seu derradeiro Natal! Afastá-los da família é uma monstruosidade; culpabilizar os netos e filhos de os matarem é outra monstruosidade.
  6. P.S. NÃO SOU uma médica "pela verdade"; em ciência, a verdade de hoje deixará de o ser amanhã. Sou alguém que, além das especialidades, fez investigação e sabe como analisar um documento científico.

Claro que houve troca de comentários

Os comentários enraivecidos e até insultuosos ao texto que publiquei atestam bem a necessidade de alertar sobre o risco de reuniões familiares alargadas no Natal.

Há mesmo quem pense que não deve haver restrições! Escrevi o texto porque uma mãe /avó me contou estar preocupada porque os filhos e netos queriam vir, contra a sua vontade, passar a quadra com ela e marido, ambos idosos.

As pessoas que aqui escreveram provavelmente também são contra o uso de máscaras. Provavelmente são contra todas as recomendações nacionais e internacionais.

Provavelmente nunca presenciaram o sofrimento de quem tem o síndroma de dificuldade respiratória aguda severa - SARS CoV2, provavelmente não são médicos e se o são não o deveriam ser e provavelmente não perderam ninguém nesta pandemia. Só assim o posso compreender.

E este 

Lourdes Cerol Bandeira

 li e leio muitos artigos científicos.

Não vou comentar o seu comentário.

Se tem outra opinião, se não lhe impressionam as mortes dos idosos (sim, por COVID-19), se se acha superior aos epidemiologistas a nível mundial, então nada mais há a dizer

Estava mesmo a pedir uma respostazita à minha maneira... aqui vai

  1. Não "comenta" o meu comentário? Acabou de o fazer... só não o comenta sob o ponto de vista científico presumo... Não tem bases? É normal, antes de as ter, eu também não as tinha...(verdade de monsieur de La Palisse).  Dei-lhe material de estudo, pode procurar mais... Em ciência, só a discussão dos assuntos prementes pode originar as conclusões correctas e contribuir para a evolução científica...
  2. Não me venha com a lenga-lenga de que não me impressiona a morte dos idosos! Essa já é velha. Digo-lhe que o que mais adoro na Cardiologia é a Cardiologia Geriátrica e nisto disse tudo. O meu artigo, Os Nossos Idosos, complementa o que disse. Amo os idosos e como médica e cardiologista, olho para eles como um todo físico e psíquico, diferentemente de muitos dos meus colegas que se esquecem dessa segunda parte do ser humano, a parte psíquica. Assim, proteja-os de uma possível pneumonia vírica, CoV-2 ou outra, mas vai matá-los com depressão e abandono.
  3. Engana-se, não me acho superior aos outros, nunca lutei por títulos ou medalhas, os que tenho foram conseguidos prestando provas difíceis: especialidade de Cardiologia, especialidade de Medicina de Catástrofe, Assistente da Universidade de Paris-Val-de-Marne (que se consegue defendendo uma tese baseada num trabalho científico feito pelo próprio, perante um júri e não com palmadinhas nas costas dos amigos). Sou exclusivamente EU, com o cérebro que Deus me deu, que me permite de ter raciocínio e tirar conclusões usando os ensinamentos que acumulei ao longo dos anos. Há muitos outros como eu, que não seguem o rebanho, por exemplo esses cientistas que fizeram a peer-review externa ao trabalhinho de Corman & Col., o grupo de canadianos que fez o 1º trabalho que pôs em causa o Nº de ciclos usado no protocolo da OMS. Mas é "normal" o seu pensamento, "quem se afasta do rebanho é porque se acha superior". Pois eu considero que quem segue o rebanho ou é preguiçoso para estudar e tomar decisões ou inseguro (não quero usar outra palavra que pode ser mal interpretada) pois no rebanho está confortável e sente-se protegido.
  4. Quanto ao seu post precedente: apesar de o meu comentário não ter nada de "enraivecido" e muito menos de "insultuoso" devo acrescentar que não sou contra o uso de máscaras cirúrgicas, aquelas que a colega está habituada a usar quando necessário. Não impede que ponha em causa a eficácia das que se vendem ao grande público, que de cirúrgicas só têm a cor, e cujo fabricante tem a necessidade de descartar responsabilidades na embalagem.
  5. Quanto ao móbil que a levou a escrever o seu post principal, esse casal de idosos só tem que dizer aos filhos e netos que não os deseja ver pois têm medo de ser infectados... simples! Apesar de ter muitas dúvidas quanto a essa realidade pois quando um casal de idosos não deseja ver os filhos e netos algo de muito mau se passou anteriormente... Tenho 73 anos, perdi um filho há 23 anos. Prefiro morrer a deixar de abraçar e beijar os meus outros 2 filhos e a minha neta. Tenho-o feito desde o início e continuarei. De qualquer modo... não espero viver até aos 150 anos, felizmente a vida está limitada a menos um século. Quer queira, quer não, somos "robôts" de matéria orgânica, logo bio-degradável... e não há ciência que consiga reverter o destino do ser humano.

Mais uma vez Feliz Natal.

Data: 
15 Dez, 2020
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