Comentários controversos

Há uma publicação "interessante" feita por alguém que sabe escrever e que já tem os seu créditos e méritos Raquel Varela. Vejamos então de que se trata

Raquel Varela

Ontem às 14:36  

Os "Grupos pela Verdade" e a qualidade da informação pública.

Como sabem o debate em Portugal sobre as medidas da pandemia está mais ou menos reduzido a um jogo de futebol entre crianças de 5 anos, há os do clube catastrófico e os negacionistas. De um lado notícias que contam mortos com gráficos descontextualizados, espalhando o pavor como medida "educativa", dizem-nos. Do outro todo o tipo de grupo estranhos. Um dos grupos que é chamado ao debate são algo que dá pelo nome de "Médicos pela Verdade". Não conheço tal organização, nem sei se é uma organização - limitei-me a ver um vídeo, o que não permite tirar conclusões, e não ser do vídeo em causa. Primeiro: uma qualquer coisa chamada Pela Verdade causa-me logo estranheza. Estamos perante uma pandemia, e um novo vírus, cujos consenso é cada vez menor e o desconhecimento enorme - há porém um grupo que acha que sabe a verdade. É de desconfiar. Segunda questão - a bandeira de Portugal atrás do vídeo tem um cunho nacionalista e xenófobo, ainda que seja apenas um lapso patriótico, digamos assim. O facto é que muitos destes grupos no mundo têm sido colonizados ou aproveitados pela extrema-direita. Não estou a dizer que é o caso, mas não é um acaso que o negacionismo foi liderado por homens de extrema-direita como Bolsonaro e Trump.

O que ouvi no vídeo é um misto de verdades e mentiras - questionam os testes de PCR, uso de máscaras, confinamento - o que muitos cientistas sérios no mundo fazem. E juntam a isso "verdades" como isto é tudo uma cabala, estava programado, é uma gripe como outra qualquer, etc. Ora, nós temos um vasto corpo de cientistas, quer nacional quer estrangeiro, que pode questionar com fundamento a eficácia das medidas do Governo explicando que sendo uma gripe, ou mesmo até menos para a maioria, não havendo imunidade de grupo, pode e está a colapsar os cuidados intensivos. E que o recolher obrigatório não terá qualquer efeito nesse colapso. A rigor a minha conclusão depois de um vídeo é que estes grupos só ganharam espaço porque o Governo deu-lhes espaço com os seus próprios erros, aprovando medidas contraditórias, injustas, muitas irracionais e deu, não raras vezes, números falsos como verdades inquestionáveis, e ainda uma incapacidade notável de assumir que falhou no essencial, que é o SNS, e, por fim, cereja no bolo, manter a produção em pleno e culpabilizar as famílias pelos contágios que são na produção que está a funcionar em pleno. É aqui que grupos negacionistas ganham amplo auditório, porque vêem que as medidas do Governo são incoerentes, destroem os empregos e não estão a impedir uma gravíssima crise de saúde pública, que se agrava em COVID e não COVID.

Não sou porém a favor de se eliminar as páginas como os MPV ou que se perseguiam os seus autores como "desinformação". A ser assim teríamos que proibir algumas conferências de imprensa do Governo que em matéria de desinformação têm sido inesgotáveis, apesar de acompanhadas de Power Point. Abrir notícias com idosos a ser entubados não é uma boa resposta também, já que ajuda a espalhar o pânico e alimenta os dois lados da barricada. Sobretudo, o medo, tira os mais frágeis do acesso aos hospitais, que deixam de ir tratar-se. É essencial acabar com o pavor que está a impedir as pessoas de terem acesso a cuidados de saúde em situações não COVID.

Proibir ou atemorizar não é o caminho. A única coisa que nós podemos fazer pela verdade é estimular a dissensão, a razão crítica, o contraditório, dar a conhecer a ciência que se produz, as dúvidas. Se a comunicação social der mais espaço à crítica e ao debate com contraditório creio que as pessoas vão refugiar-se menos neste tipo de sites. Parece-me que é esse o sentido da informação. Se apostarmos em educar a população teremos menos claques de futebol nesta pandemia.

Perante isto, não pude deixar de responder

Não pertenço a grupo algum, pertenci aos primeiros 8 dias de vida dos MPV mas saí do grupo por razões muito pessoais. Eu estava em zoom nesse vídeo, tinha sido convidada, e falei da violação da leges artis no âmbito das "consultas por telefone", dos assintomáticos que podem (sublinho que disse "podem") transmitir a doença, assim como me insurgi contra alguém da plateia que meteu os médicos todos no mesmo saco e os pôs de rastos. Não me diga que ir contra a violação da leges artis e dos direitos do ser humano à saúde (na altura os centros de saúde estavam fechados) é ser "negacionista".

Não pretendo fazer comentários sobre os meus outros colegas. Na minha maneira de ser sempre fui mais ou menos "freelancer". Não faço vídeos (esse foi o 1º e o último), recuso entrevistas, logo, sou "invisível". O que quero comentar é que, se era para dizer que

"o Governo deu-lhes espaço com os seus próprios erros, aprovando medidas contraditórias, injustas, muitas irracionais e deu, não raras vezes, números falsos como verdades inquestionáveis, e ainda uma incapacidade notável de assumir que falhou no essencial, que é o SNS, e, por fim, cereja no bolo, manter a produção em pleno e culpabilizar as famílias pelos contágios que são na produção que está a funcionar em pleno..."

não precisava de pôr de rastos aqueles que não conhece pois só viu um vídeo e que associa à extrema-direita (não está em causa se esse grupo tem cometido erros ou não, não me compete a mim julgar e muito menos colegas). Ponha directamente de rastos os verdadeiros culpados, os que se negam a debates com profissionais de saúde (que não sejam sempre os mesmos que aparecem nas TVs), que lançam números em bruto, sem qualquer tratamento estatístico, dando sempre realce para os valores acumulados de positivos a que chamam doentes (sem que um exame médico tenha sido efectuado - mais uma violação da leges artis, pois um exame de laboratório não pode substituir a clínica e não faz diagnósticos).

Já agora, deveria referir também que as imagens das UCI e dos doentes entubados são imagens de arquivo da CS bem seleccionadas para tornar o quadro macabro (um dos vídeos de UCI foi filmado salvo erro em Março ou Abril na UCI do H. de S. João e ainda hoje passou no noticiário da SIC). Será que estas imagens alarmistas e macabras não constituem crime de violência psicológica? deixo a pergunta a quem sabe responder.

PS: Uma UCI normal é sempre assim, por isso é chamada UCI: muitos aparelhos (são as máquinas de suporte da vida), doentes entubados, circulação extracorpórea, etc.. Essas imagens não são exclusivas dos doentes COVID e estão a ser usadas para espalhar o terror no leigo que nunca soube o que é uma UCI.

Junto um link para quem gosta de ler sobre estes assuntos

O medo e a Sociedade



Data: 
25 Nov, 2020
340 leituras