O Colapso do nosso Serviço Nacional de Saúde

Urgências

Desde António Correia de Campos, ex-ministro da Saúde, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) começou a ser desmantelado com a centralização hospitalar.

Os Hospitais Distritais perderam a autonomia e sobretudo perderam valências, tornando-se apêndices dos «Centros Hospitalares».

Neste momento, o SNS, que muitos acharam que correspondeu muito bem às necessidades da pandemia, está completamente impossibilitado de dar resposta ao utente que dele necessita, entrando num colapso total, não perante a COVID-19 mas perante as necessidades dos utentes de todas as outras patologias.

Todos os doentes não-COVID vivem neste momento um drama terrível por falta da assistência que lhes é devida. Os Centros de Saúde estão fechados!

Penso, sobretudo, nos doentes oncológicos, nos doentes com estudos em curso por patologias que ainda não estavam completamente diagnosticadas, nas cirurgias necessárias mas não urgentes que foram canceladas e que não veem esperança de uma marcação nos próximos meses, doentes crónicos que deixaram de ter o apoio dos seus médicos de família, consultas por telefone (como se isso fosse possível em medicina), doentes com bronquites crónicas, arteriopatias crónicas, etc., enfim, toda uma população que ficou desprotegida porque as instituições de saúde foram transformadas em «linhas de atendimento COVID-19».

Neste momento, em que os hospitais distritais podiam ser chamados a colaborar na recuperação das infinitas listas de espera, as ausências de valências tornam-nos incapazes de uma ajuda eficaz por mais que os que lá trabalham se esforcem: uns perderam o serviço de cirurgia, outros perderam o serviço de cardiologia, outros o serviço de pneumologia, entre outros.

Mas esta desgraça não se faz sentir só na assistência ao utente. Faz-se sentir também na entrada dos médicos recém-formados nos internatos da especialidade!

Muitas especialidades poderiam ser feitas em hospitais distritais, mesmo que os internos tivessem que fazer alguns estágios em outras instituições (como se fazia antigamente, por exemplo, quando eu fiz cardiologia não havia em Portugal nem Hemodinâmica, nem Cardiologia Pediátrica.

Cada um de nós teve que ir para onde fosse possível… eu fui para Paris, um colega foi para Madrid…).

Temos falta de médicos, o governo sugeriu que se aumentasse a entrada para mais 15 por cento nas Faculdades de Medicina. Logo os responsáveis vieram dizer que não, não havia possibilidades e o bastonário da Ordem dos Médicos veio dizer que «mais alunos não significa mais médicos».

Há quem alegue que não terão vaga para entrarem no internato da especialidade! Sendo o curso de Medicina de seis anos (mais um de internato geral), temos sete anos para preparar a entrada de todos esses alunos nas especialidades para as quais sentem mais vocação (vocação é algo extremamente importante em Medicina, não se estuda, não se aprende, nasce connosco! A empatia pelo doente nasce connosco!).

Há falta de médicos por todo o país, sobretudo nas zonas rurais, e há médicos que não conseguem entrar nas especialidades porque as vagas são limitadas, sentindo-se inúteis por serem indiferenciados e não sabem o que fazer!

Devo lembrar-vos que imediatamente após o 25 de Abril de 1974, existiu um «Serviço Médico à Periferia» e que este serviço foi a origem dos atuais Centros de Saúde.

Devo lembrar-vos que nessa altura ainda não havia a especialidade de Generalista, portanto foram os Médicos, que agora classificam de «indiferenciados», que trabalharam como generalistas e que criaram os Centros de Saúde e a base do nosso SNS. As conclusões do que acabo de escrever são óbvias, deixo-as ao vosso raciocínio pois poderão ser ainda mais completas que as que me vêm à mente. Há algo muito importante a fazer – recebemos muito dinheiro, temos uma oportunidade única, é imperativo ressuscitar os hospitais distritais, equipá-los, desenvolver as valências que mais se coadunam com as características da população… dar possibilidades a todos os médicos de seguirem a especialidade que mais desejam, pois só somos competentes naquilo que nos dá prazer fazer.

Entretanto, porque não criar um serviço médico à periferia em socorro das populações mais desfavorecidas, para esses médicos que aguardam a tão desejada entrada no internato da especialidade? Daria tempo para reorganizar os hospitais distritais. Seria excelente se fosse previsto direcionar uns hospitais só para as valências médicas e outros (os que têm melhores blocos operatórios) só para as valências cirúrgicas. Misturar tudo no mesmo hospital origina uma enorme confusão que começa à porta do hospital, no seu serviço de urgência.

Data: 
6 Ago, 2020
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